Olhou no espelho, coçou os olhos e ajustou o foco de sua visão ociosa.
Estava suja, suja e perdida, conseqüentemente despontada. Sim, era esse raciocínio que ignorei, no início do texto. Era exatamente assim que estava, vivendo a pouca parte da vida que existia dentro dela. Sustentando 1/4 daquilo tudo que acreditava que era, e esperava ser. Era uma aspirante da vida que mantia dentro de si, aguardando o dia que essa parte vivesse fora dela. Mas de volta à claridade dos fatos... ficou cansada. Ligou o chuveiro, se despiu de roupas e armas repousando o corpo nu e indefeso na privada. O barulho do ambiente era tudo o que queria; as águas eliminam tudo o que não presta da gente;
o Sentimento, que logo arrebatou seu presente e a fez apagar a luz. Pensou no vazio daquele escuro, pensou na verdade que mesmo dentro daquela ausência de luz existia. A certeza de desconhecer tudo o que rodeava o seu tempo. Ausência de cor e forma. Futuro. O barulho da água caía e ela permanecia sentada, já não fazia nada. Só queria manter o corpo parado, naquele momento para ter a sensação de ter congelado o tempo, mas a água caía, lembrando que o tempo escorria pelo ralo. Sentiu uma necessidade de fechar os olhos, mesmo no escuro, e ao fazê-lo comprimiu o lábio umedecendo os cílios selados. Tentava inutilmente, com aquele gesto infantil, enganar a pouca idade que carregava nos ombros, suficientemente pesada para saber a responsabilidade do agora.
No fundo ela sabia o que iria acontecer, e tentava equilibrar esse poder de inútil premeditação com a probabilidade dos fatos. É preciso manter a esperança da possibilidade. Afinal de contas, se não fosse a mesma a última a morrer, quem seria o sobrevivente a chorar pelas idéias que morressem dentro de nós? Contar as histórias de sonhos antigos, e puxar a força de nossas entranhas para permanecer, apesar de o-que-quer-que-tenha nos esmorecidos?
O ar agora se tornava vapor, acalmando seu desespero. Preenchia o espaço, consolava a solidão. Envolvia seu corpo, abrindo seus poros. Respirava, fluía. Aquela sensação de estar de vácuo aos poucos dava espaço ao acalanto morno da água. Foi rápido, e aquela gota de tato, sozinha, conseguiu afastar todo o medo que estava sentindo. Foi como se a luz voltasse a estar acesa, mesmo de olhos fehados, mesmo na escuridão do banheiro.
Sinto muito se desaponto os embalados em sua catarse, porém naquele momento, algo de muito feliz inundou aquele banheiro. Era água, menina, suor e sorriso transbordando de todos os canos, se deixando estar assim, sem se importar do porque.
Ela decidiu então que seria o momento perfeito para testar seus movimentos. Como se tudo fosse a primeira vez, foi permitindo suas extremidades ganharem vida na ordem do contato com o externo. Assim o fez para que pudesse resguardar a circulação segura da alegria que estava sentindo. Quando já estava de pé, se permitiu quatro passo em direção ao chuveiro. Parou; e quando já perdida na essência do vapor, decidiu dar o quinto, sentindo do crânio, aos dedos do pé, a água. 'As águas eliminam tudo o que não presta da gente', pensou.
Então de súbito uma vontade de abraçar alguém tomou conta de si. Viu que 3/4 dela não eram feitos para existir dentro do seu corpo. Esses só existiriam se tomando forma no alheio, batessem no coração de outros. Levando um pouco de eu, para todos nós.
A água continuava a cair, e ela não tinha pressa, nem medo de estar sozinha. De verdade, não estava sozinha, estava com essa nova pessoa, que descobriu dentro dela.
Um comentário:
Quando eu olhei veio logo um "putz ... é grande"
Confesso que a primeira vez que li não entendi tudo e que não gostei tanto de umas partes justamente por nao ter entendido.Também veio na cabeça "Saudade dos ideais que a vida insistiu em provar não passarem disso".
Mas achei o final "Então de súbito uma vontade de abraçar alguém tomou conta de si. Viu que 3/4 dela não eram feitos para existir dentro do seu corpo. Esses só existiriam se tomando forma no alheio, batessem no coração de outros. Levando um pouco de eu, para todos nós.
A água continuava a cair, e ela não tinha pressa, nem medo de estar sozinha. De verdade, não estava sozinha, estava com essa nova pessoa, que descobriu dentro dela."
lindo de uma maneira tao bonita e simples que nossa ...
Ai li agora pela segunda vez com cuidado e passei a entender e achei que o texto todo ficou realmente bom. Não como "reflexos complexos" que você lê e tipo 'caramba!' é mais como se percebe 'cara. esse texto É bom' Fico impressionada de verdade com o jeito que escreveu(nao só esse)sempre passa alguma coisa maior quando se lê.Me bateu um desapego tão grande esse agora.
E você se mantém consistente na maneira como escreve, o que é legal porque da pra reconhecer um texto seu sabe.
Enfim, isso tudo pra dizer que gostei .
E que o final foi lindo ( é, precisava falar denovo, fiquei parada nesse final)
ps - privada é uma palavra tão ...
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